LESÕES DA ARTICULAÇÃO ESCAPULOTORÁCICA
Apesar de se tratar de um mecanismo de deslizamento e não de uma articulação verdadeira, pesquisas recentes têm demonstrado seu papel crucial na função do ombro. Esse conhecimento é fundamental para uma melhor abordagem no tratamento do ombro do atleta.
A escápula desempenha o papel de propiciar movimentos e posições para o uso dos membros superiores, facilitando a função da articulação do ombro. A sua primeira função é ser parte estável da articulação do ombro. Isso significa mover-se de forma coordenada, com a extremidade proximal do úmero, para manter o centro de rotação da articulação.
Sua segunda função é o movimento de protração e retração na parede torácica, fundamentais para retensionar a musculatura anterior do ombro, principalmente na fase inicial do arremesso, promovendo a aceleração e a desaceleração final.
A terceira função da escápula é a elevação do acrômio, diminuindo a compressão das estruturas do ombro, contra o arco coracoacromial. A quarta função é servir de inserção para a musculatura da cintura escapular, os estabilizadores da escápula, propiciando o seu movimento para desempenhar as funções citadas. A sua última função é servir como um elo entre os pólos proximais e distais do corpo humano, numa seqüência de transmissão de energia e de aceleração. Um estudo demonstrou que, no tênis, 51% da energia cinética total é gerada pelas pernas, quadris e tronco, o que mostra a importância dos membros inferiores no arremesso.
SÍNDROME “SICK” DA ESCÁPULA
Este quadro de discinesia pode apresentar-se clinicamente em três formas, sendo que as tipo I e II estão freqüentemente associadas às lesões do lábio da glenóide. No exame clínico, a discinesia do tipo I apresenta proeminência ínfero-medial da borda da escápula e do tipo II, proeminência da borda medial da escápula.
A discinesia do tipo III, pode estar associado à síndrome do impacto e lesão do manguito rotador e apresenta proeminência da borda supero-medial da escápula 3 .
O tratamento da discinesia é feito pela reabilitação visando o afastamento temporário do arremesso e reequilíbrio dos estabilizadores da escápula, observando-se melhora após três meses de tratamento. Em uma série de 96 atletas arremessadores, portadores dessa síndrome e acompanhados por um ano, todos retornaram a atividade normal em quatro meses 3 .
A biomecânica da articulação escapulotorácica é de importância vital nos atletas que utilizam os membros superiores. Eles podem ser afetados por desarranjos em qualquer ponto da cadeia cinética, incluindo a extremidade inferior do corpo. O profissional que trata este atleta deve ter conhecimento da cadeia cinética, entendendo a necessidade de um programa global de reabilitação, para trazer o atleta às funções que seu esporte demanda.
ESCÁPULA EM RESSALTO
Historicamente descrita por Boinet em 1867, essa crepitação pode ser atribuída à múltiplas causas 2. Segundo Bateman, a movimentação repetitiva de encontro ao gradeado costal pode produzir uma alteração no periósteo da escápula, produzindo uma angulação da sua borda superior 1. Segundo Milch e Burman o atrito e estalido são produzidos pela irritação em uma das bursas da articulação escapulotorácica 11.
Os tumores ósseos da escápula, como o osteocondroma, são condições que podem produzir o quadro de escápula em ressalto e simular um quadro de escápula alada, dependendo de seu tamanho e localização (Fig 2,3).
Os tumores de partes moles, como o Elastofibroma Dorsi, podem também simular o quadro de escápula em ressalto, que se trata de uma lesão pseudotumoral, normalmente localizado entre a escápula e o tórax (Fig 4,5). Um dos possíveis mecanismos causadores dessa lesão é o atrito na região inferior da escápula, de encontro ao tórax. Este quadro foi descrito em arremessadores de basebol 4.
É importante observar que a crepitação escapulotorácica não é sempre sintomática. Grunfeld, relatou a presença de crepitação em 31% dos pacientes assintomáticos 6.
Clinicamente, a escápula em ressalto é caracterizada por crepitação, associada disfunção e dor no ângulo supero-medial da escápula, que pode estar alada e a musculatura dos peitorais, encurtada.
O tratamento, a princípio, é conservador, exceto nas condições onde existam fatores mecânicos que estejam provocando atrito escapulotorácico como: o elastofibroma, osteocondroma e alterações ósseas da borda supero-medial da escápula.
O tratamento não cirúrgico deve ser composto por analgesia, correção postural, alongamento, fortalecimento e reequilíbrio da muscular. O uso de infiltrações com corticóides na região da bursa é bastante efetivo no alívio dos sintomas.
O tratamento cirúrgico clássico consiste na ressecção da borda supero-medial da escápula e reinserção da musculatura. Estudos recentes mostram a tendência de fazer a remoção somente da bursa, que acredita-se ser, a causadora da disfunção na ausência de deformidades ósseas.
MacClusky e Bigliani relataram bons e excelente resultados em 8/9 pacientes tratados com a ressecção da bursa superior e de irregularidades ósseas do bordo supero-medial da escápula 12.
Ciullo e Jones descreveram a técnica artroscópica para ressecção da bursa e das irregularidades ósseas do bordo supero-medial da escápula em 13 pacientes. Neste estudo todos voltaram ao nível de atividade anterior a lesão. A crítica ao tratamento artroscópico, é a possibilidade de lesões adicionais como a neurovascular e a ressecção incompleta das bursas 5.
FRATURAS POR ESTRESSE
As fraturas por estresse nos arcos costais são relacionadas às atividades como: remo, golf, e esportes de aremesso e são causadas devido aos movimentos repetitivos da musculatura escapulotorácica e músculos intercostais. O tratamento, além do repouso, deve incluir avaliação do treinamento e do gesto esportivo 8.
BIBLIOGRAFIA
1. Bateman JE. Shoulder injury in the throwing sports .In The American Academy of Orthopedic Surgeons: Symposium on Sports Medicine. St Louis, Mo:CV Mosby:1969: 94.
2. Boinet W. Bulletin de la Societe Imperiale de Chirurgie de Paris, 2nd Series.1867: 8 : 458.
3. Burkhart SS, Morgan C, Kibler B. The disabled throwing shoulder: Spectrum of patology Part III: The SICK Scapula dyskinesis, the kinetic chain, and rehabilitation. Arthroscopy 2003; 19: 641-661.
4. Carrera EF, Matsumoto MH, Archetti NN, Viveiros ME, Kozonara ME. Elastofibroma dorsi: relatos de casos e revisão de literatura. Rev Bras Ortop 2004, 39 (8) 468-475.
5. Ciullo JV, Jones E. Subscapular bursitis: conservative and endoscopic treatment of “snapping scapula” or “washboard syndrome.” Orthop Trans 1993;16:740.
6. Grunfeld G. Beitrag zur Genese des Skapularkrachens und der Skapuloargeraushe. Arch Orthop J Unfall Chir1927;24:610-615.
7. Herickhoff L, Keyurapan E, Fayad L, Silberstein C, MacFarland EG. Scapular Stress Fracture in a Profissional Baseball Player:A Case Report and Review of the Literature. Am J Sports Med 2007, X: X.
8. Karlson K. Rib Stress fractures in Elite Rowers: A case series and Proposed Mechanism. Am J Sports Med 1998; 26:516-521.
9. Kibler WB: Biomechanical analysis of the shoulder during tennis activities. Clin Sports Med 1995; 14: 79-85.
10. Manske RC, Michael P, Reinam S. Nonoperative and operative management of snapping scapula. Am J Sports Med 2004; 32; 1554-1565.
11. Milch H, Burman MS. Snapping scapula and humerus varus: report of six cases. Arch Surg 1933;26:570-588.
12. McClusky GM, Bigliani L. Partial scapulectomy for disabling scapulo-thoracic snapping. Orthop Trans1990;14:252-253.
13. Morgan CD. The thrower’s shoulder. Two perspectives. In: McGinty JB, et al. Eds. Operative Arthroscopy. Ed 3. Philadelphia: Lippincot Wllians & Wilkins 2003; 570-584.
ILUSTRAÇÕES

Fig 1 – Posição assimétrica da escápula do ombro dominante em um paciente com discinesia da escápula.

Fig 2 – Tomografia computadorizada com reconstrução 3D sendo visualizado osteocondroma no polo supero-medial da escápula.

Fig 3 – Osteocondroma ressecado, aspecto macroscópico.

Fig 4 – Elastofibroma dorsi bilateral localizado entre o pólo inferior da escápula e o tórax.

Fig 5 – Elastofibroma dorsi bilateral ressecado, aspecto macroscópico.
LESÕES DA ARTICULAÇÃO ESCAPULOTORÁCICA.
EPICONDILITES LATERAL E MEDIAL.
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